As nuvens | André Caramuru Aubert
The clouds remain – the disordered heavens, ragged, ripped by winds…“
William Carlos Williams, “The clouds”
você estendeu a mão, eu peguei. íamos,
agora, portanto, de mãos dadas. conversando. conversa
mole, de namorados. listávamos quem já tinha morrido.
a sua lista, a minha, e alista comum a nós dois. os desníveis
da calçada, os postes tortos, as raízes de árvores escapando
para fora nos obrigavam a largar as mãos. mas
seguíamos conversando. falamos daquele prédio
feio que vimos logo à frente, de paredes e azulejos azuis,
hotel barato. mas ponderávamos que ele era,
pelo menos , despretensioso, ao contrário
do prédio Ohtake, enorme, preto-e-cor-de-rosa e
tão pretencioso quanto as mais terríveis pretensões
de Niemeyer. rimos. nos lembramos, então, dos
tempos em que as borracharias eram lotadas de
pôsteres de mulheres nuas. eu gostava. ajudava a
passar o tempo enquanto o pneu era remendado.
e você não gostava, achava de mau gosto. mas,
ora, admita, eu disse: você nunca entrava em borracharias.
falamos também daquela minha lambreta laranja,
que mais quebrava do que andava. rimos.
seguimos andando. de novo, nos demos as
mãos. o céu, azul de outono, deixava-se ver
entre os prédios. nuvens brancas e rechonchudas
passavam. e então você se lembrou que, quando nos
conhecemos, eu lia Los Pasos Perdidos, de Alejo
Carpentier. e então eu me lembrei do poema de
W.C.W., chamado “The clouds”, que lista
algumas pessoas que escreveram sobre nuvens:
Erasmo, Aristófanes, Sócrates, Shakespeare, Aristóteles,
Vilon, Platã… e você me lembrou das telas do Hercule
Florence, que eu adoro, ele que adorava, mais do que tudo,
as nuvens, e seguimos caminhando. de repente, um
vento forte desceu, se esgueirando entre
prédios, muros e garagens, varrendo a rua. o seu
vestido se levantou, e rimos mais, nos lembrando
daquela foto da Marilyn. no céu, curiosamente, apesar
do vento rodando aqui embaixo, as nuvens
não pareciam mudar de direção nem de velocidade. seguiam
iguais, brancas, rechonchudas, viajando sob o céu
azul. em seguida, voltamos a falar dos que já haviam morrido e
das saudades que sentíamos deles. mas as saudades eram mais
extensas, sabíamos, e nem precisamos falar disso.
pois tínhamos saudades daquela meio indefinível sensação
de confiança e força, que sentíamos apenas porque
éramos jovens, quando tudo era para sempre, e você
mencionou Nabokov, que escreveu que a infância, para
ele, era mais que um tempo, era um lugar, e um
lugar onde ninguém morria, jamais. Fernando
Pessoa também escreveu algo parecido, eu me lembrei,
mas no caso dele a infância não era o lugar onde ninguém
morreria, mas o lugar o onde todos ainda estavam vivos. havia
uma diferença aí, sútil mas importante, a respeito da qual
concordamos, e o fato é que nós dois sentíamos exatamente
como Nabokov (sobre aquele tempo do qual temos saudades).
e nós seguimos então caminhando, e as nuvens, no céu, entre
os prédios, brancas, rechonchudas, continuavam
a seguir, no mesmo ritmo, naquela viagem delas
que era meio boba, meio sem rumo.
AUBERT, André Caramuru. As cores refletidas nas lentes do seus óculos escuros. São Paulo: Patuá, 2016. p. 81-82.
CONSTABLE, John. Cloudy Study. 1822. 37 x 49 cm.

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