As nuvens | André Caramuru Aubert

 


The clouds remain – the disordered heavens, ragged, ripped by winds…
William Carlos Williams, “The clouds”


Cloudy study, John Constable (1822).
Cloudy study, John Constable (1822).

você estendeu a mão, eu peguei. íamos,

agora, portanto, de mãos dadas. conversando. conversa

mole, de namorados. listávamos quem já tinha morrido.

a sua lista, a minha, e alista comum a nós dois. os desníveis

da calçada, os postes tortos, as raízes de árvores escapando

para fora nos obrigavam a largar as mãos. mas

seguíamos conversando. falamos daquele prédio

feio que vimos logo à frente, de paredes e azulejos azuis,

hotel barato. mas ponderávamos que ele era,

pelo menos , despretensioso, ao contrário

do prédio Ohtake, enorme, preto-e-cor-de-rosa e

tão pretencioso quanto as mais terríveis pretensões

de Niemeyer. rimos. nos lembramos, então, dos

tempos em que as borracharias eram lotadas de

pôsteres de mulheres nuas. eu gostava. ajudava a

passar o tempo enquanto o pneu era remendado.

e você não gostava, achava de mau gosto. mas,

ora, admita, eu disse: você nunca entrava em borracharias.

falamos também daquela minha lambreta laranja,

que mais quebrava do que andava. rimos.

seguimos andando. de novo, nos demos as

mãos. o céu, azul de outono, deixava-se ver

entre os prédios. nuvens brancas e rechonchudas

passavam. e então você se lembrou que, quando nos

conhecemos, eu lia Los Pasos Perdidos, de Alejo

Carpentier. e então eu me lembrei do poema de

W.C.W., chamado “The clouds”, que lista

algumas pessoas que escreveram sobre nuvens:

Erasmo, Aristófanes, Sócrates, Shakespeare, Aristóteles,

Vilon, Platã… e você me lembrou das telas do Hercule

Florence, que eu adoro, ele que adorava, mais do que tudo,

as nuvens, e seguimos caminhando. de repente, um

vento forte desceu, se esgueirando entre

prédios, muros e garagens, varrendo a rua. o seu

vestido se levantou, e rimos mais, nos lembrando

daquela foto da Marilyn. no céu, curiosamente, apesar

do vento rodando aqui embaixo, as nuvens

não pareciam mudar de direção nem de velocidade. seguiam

iguais, brancas, rechonchudas, viajando sob o céu

azul. em seguida, voltamos a falar dos que já haviam morrido e

das saudades que sentíamos deles. mas as saudades eram mais

extensas, sabíamos, e nem precisamos falar disso.

pois tínhamos saudades daquela meio indefinível sensação

de confiança e força, que sentíamos apenas porque

éramos jovens, quando tudo era para sempre, e você

mencionou Nabokov, que escreveu que a infância, para

ele, era mais que um tempo, era um lugar, e um

lugar onde ninguém morria, jamais. Fernando

Pessoa também escreveu algo parecido, eu me lembrei,

mas no caso dele a infância não era o lugar onde ninguém

morreria, mas o lugar o onde todos ainda estavam vivos. havia

uma diferença aí, sútil mas importante, a respeito da qual

concordamos, e o fato é que nós dois sentíamos exatamente

como Nabokov (sobre aquele tempo do qual temos saudades).

e nós seguimos então caminhando, e as nuvens, no céu, entre

os prédios, brancas, rechonchudas, continuavam

a seguir, no mesmo ritmo, naquela viagem delas

que era meio boba, meio sem rumo.


AUBERT, André Caramuru. As cores refletidas nas lentes do seus óculos escuros. São Paulo: Patuá, 2016. p. 81-82.

CONSTABLE, John. Cloudy Study. 1822. 37 x 49 cm. 



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