A poesia vai | Manoel António Pina


 







A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: “Que fez algum
poeta por este senhor?” E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça. – – Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

Clóvis da Silva

PINA, Manuel António. O coração pronto para o roubo: poemas escolhidos. São Paulo: Editora 34, 2018.

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