Três amigas | Cecília Meireles



As três amigas chegam pelo correio, de lugares diferentes, cada qual procurando comunicar-me suas diferentes emoções.

A primeira manda-me apenas um postal: foi para o círculo ártico ver o sol da meia-noite. Sonhava solidões, silêncios... — quem teve jamais o que sonhou? Mas o postal é uma paisagem árdua: pedra abrupta e água lisa, um céu ruivo, como de labareda. No primeiro plano, um perfil sereno contempla esses três níveis: água, pedra e céu. Não é o perfil da minha amiga; mas podia ser. Ela partiu, cansada das algazarras do mundo, da confusão da vida, para receber —  mais do que nos olhos  — na alma a pureza ainda que rude de um tempo menos caótico. E creio que, para o seu coração, o espetáculo do sol da meia-noite a atraía como um sinal sagrado, com o poder simbólico da luz na escuridão.

A segunda amiga revela-me a sua perplexidade, pois acaba de descobrir que vai completar cinquenta anos. Ela nem acredita nisso, e não sabe explicar como tal coisa lhe aconteceu. Sente-se como uma pessoa de trinta: não há livro, não há exposição de arte, não há concerto que a deixe indiferente. Executa, como a agilidade de sempre, infinitos tricôs para as crianças pobres; participa de todas as obras de assistência social; pratica esportes; tem uma saúde excelente e uma alegria que vence todos os contratempos. Com meio século de uso, ela encontra as outras pessoas amarguradas, queixosas, tristes e sua vida parece um escândalo aos seus próprios olhos. Então, para não envergonhar os seus colegas de meio centenário, a minha admirável amiga pergunta se não deve fazer um esforço para envelhecer, se não deve fechar seu coração à beleza do mundo e redigir quanto antes o seu — bastante reduzido — testamento. Que se pode responder a essa adorável criatura a quem, sem nenhum espírito de fraude, jamais ocorrera ter chegado sequer aos quarenta anos?

A terceira amiga está numa fotografia, cercada de crianças: todos os anos tem um filhinho novo, e a sua vida é um transbordamento de amor. Nós nos fizemos amigas pela coincidência de sentimentos na valorização do humilde, no gosto pelo autêntico, na ternura pelas coisas que conservam a sombra de uma presença humana: velhos objetos sem dono, lembranças do passado, restos indefesos do esforço — quase sempre malogrado — de viver. Assim, descobrimos que amávamos o que ninguém mais ama, que tínhamos a alma carregada de retalhos de antigos vestidos, pedaços de louças quebradas, relógios perdidos, retratos irreconhecíveis, livros que se nos desfaziam nas mãos, palavras algum dia ouvidas e como escritos num muro eterno diante de nós. Descobrimos também a nossa insignificância, comprada aos arquivos, aos museus, aos cemitérios que transportávamos conosco. Desejamos que nada se perdesse do que um dia foi feito com a amorosa intenção de durar. Diante de um mundo ingrato e amargo, ávido de imediatismo, ousávamos dirigir também os nossos olhos para o que ia ficando para trás. Para o que se abandonava e esquecia. E ficamos amigas para sempre.

E eis que a minha terceira amiga me escreve da sua propriedade rural, onde, alheia ao conforto do século, vive mais das árvores que dos móveis, mais do solo e da chuva que dos próprios aposentos, misturada às crianças, inclinada para cada pequenina vida que vai cumprindo obscuramente o seu destino pelo chão e pelo ar. E manda-me uma folhinha de malva, que sai da carta ainda tão verde e perfumosa como se não tivesse sido cortada, e uma flor de alfazema, do cesto que lhe acabam de trazer: uma pequena flor em que recebe o vento e o céu desse recanto simples da terra, amado pelo seu coração, e pelo qual ouço passar a sua voz, tão natural e sincera, clara e cristalina como a das suas luminosas crianças.


MEIRELES, Cecília. Ilusões do mundo. São Paulo: Global, 2014. 

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