Janelas | Mia Couto



Demoro

a fechar janelas

porque me dói

a vida entre dentro e fora.


Meu gesto lento,

sem antes nem depois,

desconhece se abre ou se fecha

a janela de uma outra janela.


Sem longe nem perto,

entre sombra e além,

na casa onde meu corpo começa,

sou eu mesmo a terra que contemplo.


Depois do vidro,

perdida da sua própria imagem,

a paisagem ainda mora toda em mim.

E eu, já, nela.


COUTO, Mia. O tradutor de chuva.  Alfragide: Caminho, 2011.


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