Cacos para um vitral | Adélia Prado





Existe mesmo o Japão?

E um país que não conheço, com seu litoral desertor?

Entre as coxas é público. Público e óbvio.

Quero é teu coração, o fundo dos teus dois olhos

que só faltam falar.

Mira-me en español pra ver se não estalo os dedos 

e saio dançando em vermelho.

Fechei os olhos no sol, vi a forma-prima

por um segundo só e esqueci.

Como existiram os santos, Deus existe

e com um poder de sedução indizível.

Quem fez o ouro foi Ele, quem deu tino ao homem

pra inventar o cordão que se põe no pescoço.

Dito assim é tão puro, quase não vejo culpa

em comprar um pra mim.

Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás,

imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada,

minha mãe fazendo café

e meu pai sentado, esperando.


PRADO, Adélia. Reunião de poesia. 8. ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2020. [p. 131]

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